Poderemos dar sabor à Matemática?

Ensinar matemática é um grande desafio para qualquer profissional. Incutir o gosto por esta disciplina resulta num trabalho e numa luta constantes por forma a que os desafios que a matemática apresenta sejam ultrapassados. Mas como é que nós, professores, lidamos com tal situação? Como ajudar a desenvolver o gosto pela matemática? Como terminar com a ideia da Matemática ser um bicho de sete cabeças?

Os desafios são evidentes mas são isso mesmo, desafios que diariamente tentamos ultrapassar. Nesse sentido é intenção desenvolver e implementar estratégias de trabalho que, em primeiro lugar, envolvam os alunos em todo o processo, que tenham a liberdade de desenvolver as suas capacidades de acordo com os desafios lançados e desenvolvam a sua capacidade de pensar e resolver problemas. Mas como poderemos fazer?

Partilho aqui algumas experiências de trabalho implementadas nas aulas de Matemática aos alunos do 5º e 6º ano do Instituto dos Pupilos do Exército.

Para começar nada como falar do projeto “Matemática Al Dente”. Foi o primeiro grande desafio do segundo período. Os objetivos, variavam entre construir a torre mais alta que suportasse um Marshmallow no topo, para os quintos anos e a ponte mais comprida que suportasse o marshmallow no centro, para os sextos. Divididos em grupos, os alunos começaram por projetar as ideias no papel e, com o material disponível, começaram a desenvolver os projetos apresentados. Os resultados surpreenderam em especial algumas das pontes apresentadas. A criatividade foi essencial nestes projetos, tal como o trabalho em equipa. Mas que capacidades matemáticas estão inseridas aqui? Na realidade muitas, desde a compreensão de que as bases das torres teriam de ser pirâmides triangulares ou quadrangulares, até à importância dos triângulos na construção dos projetos das pontes.

Mas a Matemática tem mais encanto e sentido quando compreendemos a sua importância no nosso dia a dia pelo que entrámos no Mundo encantado das viagens. O projeto incidia na criação de uma agência de viagens onde, perante dois clientes, os alunos teriam de estimar os custos associados a essa viagem, de carro, de avião ou comboio. Qual a melhor opção? Mas como se lançou o desafio? Desenvolveu-se uma sequência de aprendizagem online, para os alunos consultarem e estudarem (usando o OneNote*). A sequência era constituída por exercícios autocorretivos (avaliação formativa, com recurso ao Formos*), continha exemplos de situações do dia a dia onde se aplicavam os conceitos de proporcionalidade direta e onde estavam disponíveis vídeos explicativos e simulações. Mas o mais interessante foi a discussão e as tomadas de decisão. Orçamentos projetados, custos calculados e saíram os trabalhos finais.
Depois de concluídos os trabalhos, eis que os aviões apareceram na sala de aula. Não partimos numa viagem, mas exploramos, mexemos e medimos aviões e descobrimos as medidas reais dos aviões modelo. No entanto, não ficámos por aqui. Usámos mapas de orientação pedestre de várias cidades do país e calculamos percursos… Estávamos a estudar escalas, numa aula planeada por um grupo de alunos com o professor.

Mas os desafios não ficaram por aqui. Surgiu a sala de aula invertida que é outro dos projetos que está a ser implementado nas turmas de sexto ano. Mais uma vez, em grupos, os alunos escolheram um tema, apresentaram os resultados dos seus estudos autónomos e, em conjunto com o professor, planificaram a aula. Tinham uma hora para gerir e trabalhar com os colegas. Organização, empenho e dedicação foram fatores chave neste trabalho. Para além da responsabilidade e do desafio alcançado, tiveram a oportunidade de sentir o papel do professor. E o gosto pela matemática não fica por aqui! A arte veio ao seu encontro. As isometrias, as medições e os trabalhos fora da sala de aula foram outros desafios lançados aos alunos.
Ao professor de matemática coube a responsabilidade de dar aos alunos a oportunidade de descobrir relações matemáticas. De fitas métricas na mão, aos pares, os alunos mediram perímetros e diâmetros de circunferências. Passaram pelos vasos das plantas, rodas, tubos e circunferências do campo de jogos. Medições feitas, foi a vez de colocar o trabalho nos computadores. Uma folha de cálculo, uma fórmula e os resultados foram uma surpresa. Fosse maior ou menor o resultado era sempre 3,1… E esse é o valor de PI. Feita a conclusão, perceberam o conceito, praticaram as medições e, acima de tudo, compreenderam as relações (com recurso ao Excel*).

Mas e os mais novos, o que andaram a fazer? A experiência estava a começar, o Geogebra a começava a ser explorado. Em primeiro lugar, de forma mais livre, mas o que virá? Pelo menos, os aviões já andávamos a estudar. O tema são os ângulos e as suas amplitudes. Os termos são as leituras complexa e incomplexa, mas a complexidade dos termos é simples quando associadas estas leituras ao GPS. Com uma projeção do Flightradar24 vimos centenas de aviões no ar, mas cada um deles tinha uma posição específica no nosso planeta e essa posição era dada na forma incomplexa dos ângulos. Partindo daqui, percebemos a necessidade de subdividir o grau em minutos e o minuto em segundos e, aqui, já temos a forma complexa.

Mas esperemos que o encanto não fique por aqui e que o sabor que a matemática tem continue a potenciar a capacidade dos alunos do 2ºciclo do IPE.

Este artigo foi Publicado na  Revista “Querer é Poder” n.º81 (artigo premiado).

* adicionado nesta publicação e que não consta no artigo original.

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